17 nov 2020
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Farelo de babaçu é alternativa eficaz na pecuária leiteira na Amazônia

Autor: Assessoria de Imprensa

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O babaçu é uma palmeira utilizada de forma ampla e diversa pelas populações da região norte do Brasil.

As folhas, casca, caule, amêndoas e mesocarpo são matéria prima na confecção de artesanatos e utensílios, produção de cosméticos, moradias tradicionais e na alimentação. Agora, a espécie soma mais uma utilidade.

O farelo do mesocarpo, polpa localizada entre a casca e a amêndoa do fruto de babaçu, é eficiente na alimentação de gado de leite e alternativa sustentável aos compostos convencionais, feitos à base de milho e soja.

O resultado é de um experimento realizado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que atestou a qualidade e produtividade do leite em vacas alimentadas com o composto da palmeira.

A pesquisa foi feita em uma pequena propriedade da área rural de Alta Floresta, município na região norte de Mato Grosso localizado a cerca de 900 quilômetros de Cuiabá.

CONHECIMENTO TRADICIONAL

O uso do babaçu para alimentação animal na região não é novidade. Um dos responsáveis pelo experimento, o técnico do ICV Romário Fogaça Prado explica que o farelo, um subproduto do processo de beneficiamento do óleo da palmeira, é tradicionalmente fornecido a galinhas e porcos, animais criados para subsistência nas comunidades rurais.

A prática motivou a experimentação do composto feito a partir do mesocarpo na produção de leite, principal atividade da agricultura familiar na região. Para isso, foi utilizado o farelo produzido pelo Grupo de Mulheres Unidas, do Projeto de Assentamento Nova Cotriguaçu, localizado no município de Cotriguaçu.

As mulheres agricultoras produzem a farinha do mesocarpo após a coleta dos frutos dos babaçuais do assentamento para elaboração de bolachas e quitutes, em geral vendidas sob encomenda como fonte de renda extra.

O grupo é apoiado pelo Redes Socioprodutivas, projeto do ICV com financiamento do Fundo Amazônia/BNDES que apoia empreendimentos comunitários nas cadeias produtivas de hortifrutigranjeiros, pecuária leiteira, café, castanha-do-Brasil, cacau e babaçu com métodos de produção sustentáveis e economicamente viáveis na região norte e noroeste do estado, área sob intensa pressão de desmatamento.

“Já se discutia esse potencial para a produção bovina, então enxergamos a necessidade de entender para verificar se seria um uso viável para além da subsistência”, explica o técnico.

A ração utilizada convencionalmente é feita a base de milho e soja, commodities cujos preços flutuantes prejudicam a produção leiteira familiar.

É o que atesta o produtor rural Gilvan Freire, nordestino que migrou há mais de 30 anos para a área rural de Alta Floresta e hoje cria cerca de 40 vacas no sítio onde foi realizado o experimento.

“Atualmente o que penaliza o pequeno produtor é o custo de produção. Hoje o milho está caro e o farelo de soja com preços muito altos também, por isso é bom termos opções e variedade”, afirma Gilvan, que é integrante da Cooperativa Agropecuária Mista Ouro Verde (COMOV), organização assessorada pelo ICV.

A PESQUISA

“Os resultados indicaram que a inclusão de 35,6% de farelo de babaçu na ração foi capaz de suportar produção diária média de leite de 18,2 kg/dia, enquanto a ração convencional produziu 19,8 kg/dia. No entanto, o concentrado à base de farelo de babaçu teve menor consumo de matéria seca (kg/dia) indicando que não houve mudança na eficiência produtiva entre os tratamentos”, dispõe a pesquisa realizada pelo laboratório de Nutrição Animal do Centro de Ciências Agrárias da UFSCar.

Para a pesquisa, foram utilizadas 14 vacas em fase de lactação. Metade recebeu a ração convencional (feita de farelo de soja, milho e sal mineral) e a outra metade teve 35% do composto substituído pela ração com o farelo de babaçu.

Com as amostras da silagem, concentrados, fezes e urinas dos animais, foram medidos os índices de produção, lactose, gordura e proteína do leite, além do consumo e digestibilidade da matéria seca.

“São bons resultados que mostram como o produto extrativista é uma verdadeira alternativa para os produtores locais de leite”, finaliza Romário.

ALTERNATIVA SUSTENTÁVEL

O composto elaborado a partir de recurso extrativista é, além de alternativa econômica, um caminho em direção a uma produção de leite orgânico, produto de alto valor agregado.

“A soja orgânica tem um custo altíssimo, o que pode viabilizar o uso do farelo de babaçu na produção sustentável do leite”, diz Romário, responsável pela assessoria na cadeia de leite do Redes Socioprodutivas.

O pesquisador da UFSCar e condutor das análises químicas, Jozivaldo Prudêncio de Morais avalia que o uso de recursos locais alinhado à organização dos produtores familiares é capaz de viabilizar a inserção no mercado de nicho.

“O farelo de babaçu compete de forma valorizada e com apelo forte porque falamos de produção de leite orgânico e também da Amazônia”, diz.

A produção pecuária sustentável na região é incentivada pelo Redes Socioprodutivas.

O projeto instalou 28 sistemas rotacionados, tecnologia que permite maior aproveitamento do espaço ocupado pelo gado, recuperação do solo degradado e aumento da produtividade de forma sustentável.

Desde a implantação, os técnicos orientam e dão informações sobre correções no solo, manutenção do capim e manejo dos animais. Um dos exemplos de eficácia do sistema é a propriedade de Gilvan, que aumentou o índice de produtividade por vaca para além da média regional sem expandir a área de pastagem.

“É preciso que se produza mais em espaços menores, essa é a tendência para o caminho sustentável. Os produtores têm relatado os efeitos positivos das práticas. Acredito que um alimento encontrado localmente e que não é uma commodity pode ser mais uma estratégia importante para assegurar a produção sustentável”, afirma Romário.

Vacas de alto nível de produção são em geral mais sensíveis às mudanças de dieta, explica o técnico.

Por isso os resultados da pesquisa mostram-se ainda mais significativos. “Isso mostra que o babaçu tem grande capacidade de avançar na cadeia de produção de leite regional”, complementa Jozivaldo.

Benedita Ferreira, técnica do ICV responsável pela cadeia de babaçu, explica que os abundantes babaçuais da área em Cotriguaçu também sofrem pressão do desmatamento para abertura extensiva de pastagens para criação de gado.

“A coleta extrativista não é feita somente nos terrenos individuais, então não adianta manter em pé só algumas áreas em pé se houver grande desmatamento nas propriedades ao lado”, afirma.

O fortalecimento da cadeia de babaçu pode ser uma fonte de renda viável e resultar em maior integração entre as atividades produtivas. “O babaçu é uma potência dentro do assentamento”, avalia a técnica.

Além do Grupo Mulheres Unidas, no mesmo assentamento o Grupo de Mulheres da Paz elabora de forma artesanal o óleo de babaçu, feito a partir da amêndoa.

Mas os desafios ainda são grandes.

Diferentemente das tradicionais “quebradeiras de coco” do Maranhão, a maior parte das agricultoras da região tem o manejo do babaçu como uma atividade nova.

A oferta limitada e a variabilidade do produto, como a fibrosidade do farelo, resultantes dos meios de produção artesanais e esporadicidade da produção são desafios a serem superados para inserção do produto na cadeia de leite.

No experimento, por exemplo, o farelo analisado antes e o utilizado durante a pesquisa eram diferentes, e impactou no consumo de matéria seca pelos animais.

“É algo que precisa ser corrigido. É uma questão clássica dos produtos locais e exige uma adaptação nos modos de produção”, explica Jozivaldo.

 

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