17 jul 2020
ALTA FLORESTA

Projeto usa sistemas agroflorestais para restaurar APPs em pequenas propriedades

Autor: Assessoria de Comunicação

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Famílias de pequenas propriedades rurais do entorno de Alta Floresta (790 km ao norte de Cuiabá) empregam sistemas agroflorestais (SAFs) na recuperação de mais de 100 mil metros quadrados de  Áreas de Preservação Permanente (APPs) degradadas.

A área periurbana do município, que está localizado em região amazônica sob intensa pressão de desmatamento, apresentou degradação em cerca de 70% das áreas de cobertura vegetal em cursos d’água protegidos por lei.

Os resultados são do projeto Sistemas Agroflorestais para Corredores Ecológicos, iniciativa coordenada desde 2018 pelo Instituto Centro de Vida (ICV) com apoio do Conselho Federal Gestor do Fundo de Direitos Difusos (CFFD) do Ministério da Justiça.

O projeto capacitou 28 famílias de agricultores da região em técnicas de restauração florestal, análises e correções de solo e o plantio com mudas e sementes de espécies frutíferas, nativas, de legumes e de adubação verde.

Para isso, o Núcleo de Inteligência Territorial do ICV realizou o o mapeamento das APPs da região e identificou a degradação de 41,11 hectares, o equivalente a 70,44% das APPs do território avaliado.

Com base nisso, os especialistas selecionaram áreas prioritárias buscando a melhoria na conectividade de paisagem para fluxo da biodiversidade e a garantia de melhor qualidade de solo e água nas propriedades rurais da área, que em sua maioria tem média de dois hectares.

“A gente pensou em ligar esses pequenos fragmentos ao redor da cidade com esses maiores que vão chegar no rio Teles Pires, o principal da região”, explica o analista do ICV e biólogo, Eriberto Muller, coordenador do projeto.

Impacto ecológico e social

Os principais riscos das fragmentações florestais às espécies de fauna e flora são a limitação na migração de genes entre populações, o chamado fluxo gênico, e a menor disponibilidade de alimentos.

“O isolamento pode levar à morte de animais que precisam dessa conexão em busca de reprodução e de alimentação”, afirma a acadêmica de Engenharia Florestal da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e participante do projeto, Eduarda Karuline Morais.

Além da conservação da biodiversidade, a cobertura vegetal das APPs exerce o papel de filtrar a água oriunda da cidade e ainda impede a intensificação do processo de assoreamento — quando acumulam-se sedimentos, lixo e matéria orgânica na calha do rio.

“Quando a mata tá preservada, o solo fica bem estruturado e filtra a água. Sem ela, acontece o assoreamento que impacta na qualidade e a quantidade da água, afetando toda a bacia”, diz Eduarda.

Sem a proteção da área, a agricultura e a pecuária de leite, principais atividades da região, se tornam pouco rentáveis para os pequenos produtores rurais, que em geral conciliam os cultivos e a criação de gado com um emprego na cidade.

“Com o solo degradado, a produtividade dos animais para pecuária é baixa e o produtor precisa cada de uma área maior pra ter mais animais, então é difícil para os pequenos proprietários”, explica Luan Cândido, técnico do ICV.

As consequências da degradação das áreas preservadas também atingem a população da cidade, uma vez que impactam o clima e o regime de chuva locais. Atualmente, o Novo Código Florestal determina que imóveis rurais dentro da Amazônia Legal garantam a preservação de 80% da cobertura vegetal dividida entre Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legal.

Sistemas agroflorestais: método e alternativa de renda

Para Eriberto, o uso de sistemas agroflorestais, método usado para restauração florestal das APPs do projeto, é o de menor custo e maior eficácia porque envolve a participação direta dos pequenos produtores, beneficiados pela produção de legumes, frutas e outras variedades alimentícias que podem vir a se tornar uma nova alternativa de renda.

A área recuperada de 10,72 hectares inclui cursos d’água que banham nove propriedades rurais da Vila Rural Nossa Senhora Aparecida (Vila Rural II). O projeto também prevê novas ações de restauração florestal na Vila Rural Júlio Firmino (Vila Rural I) no próximo período chuvoso.

“São propriedades pequenas, então é complicado falar para a pessoa isolar 10 metros de cada lado do rio pra restaurar. Mas quando se traz a possibilidade econômica e a segurança alimentar, muitos se interessam”, afirma.

A formação de Alta Floresta é marcada pela migração de pequenos produtores rurais sulistas que colonizaram a região incentivados por uma política de incentivos fiscais para a ocupação da Amazônia desde a década de 1970.

É o caso de Roberto Zaura, natural do Paraná. “Ninguém se importava com lei, a cultura era pensar que quanto mais mata derrubada, mais progresso teria. Hoje vejo com outros olhos, quanto mais vegetação, mais vida. As SAFs têm que dar um retorno financeiro para estimular o pequeno produtor a preservar mais as áreas de vegetação”, afirma.

Roberto foi um dos capacitados pelo projeto por meio do curso “Sistemas Agroflorestais – SAF na proteção de nossas águas: Processos e práticas” e que se comprometeram em realizar a manutenção dos SAFs para garantir a continuidade da restauração.

Realizado em dezembro de 2019, o curso teórico e prático apresentou técnicas de restauração florestal, como o uso de sistemas agroflorestais (SAFs), no qual o manejo de diferentes espécies produtivas se torna uma possível alternativa de renda aos beneficiários. “Os sistemas agroflorestais permitem integrar culturas com fins alimentícios e econômicos em pequeno espaço, ao mesmo tempo aumentando a qualidade do solo e com sustentabilidade”, afirma Luan, um dos ministrantes do curso.

“Mostramos a sucessão ecológica e as plantas dentro da floresta e que, por exemplo, podemos ter abacaxi enquanto se espera amadurecer a banana, que serve de proteção a um pé de cupuaçu. A floresta funciona dessa forma. Demonstramos que a visão da monocultura não é a mais eficaz”, complementa Eriberto.

Tal mudança de concepção, afirmam ambos, pode representar um possível êxodo urbano dos pequenos proprietários. Algo como uma literal “volta às raízes”.

Roberto afirma que as instruções técnicas foram essenciais para a construção desse novo entendimento. “Todas as propriedades deveriam ter auxílio técnico e financeiro para a restauração de áreas de APPs. Assim, tornariam-se mais valiosas tanto no aspecto financeiro, quanto no ambiental.”

Confira o vídeo sobre o projeto, lançado em comemoração ao Dia Nacional da Proteção das Florestas, 17 de julho:

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