Com 40 anos de ofício, doceira ensina receitas para grupos de mulheres

Com 40 anos de ofício, doceira ensina receitas para grupos de mulheres

Grupos que trabalham alimentos derivados do babaçu e do cacau participam de oficina para potencializar suas vendas (Foto: Hubner Douglas)

“Quem não gosta de chocolate?”, perguntou Benedita Mendes, assessora do Projeto Redes Socioprodutivas, ao lembrar da programação do “Curso de confeitaria, padronização e embalagens para produtos do babaçu e cacau”, realizado de 19 a 20 de fevereiro em Cotriguaçu, Noroeste de Mato Grosso. Ao total, foram 19 participantes dos grupos Mulheres da Paz, Mulheres Unidas, Mulheres Esperança e Mulheres Liberdade. Segundo Benedita, a formação tinha o objetivo de aprimorar a qualidade dos produtos dos grupos que trabalham com babaçu e cacau, despertando essas mulheres para a importância das embalagens para garantir a conservação dos alimentos e a atratividade para os consumidores.

A capacitação foi planejada por seis meses, considerando como ponto de partida as operações já realizadas pelos grupos para produzir bolachas de babaçu e chocolate. A Benedita, que atua com a cadeia do babaçu, se uniu ao Diego de Bona, outro assessor do projeto que trabalha com a cadeia do cacau, para elaborar a apostila e a programação do curso. Ao receber essa incumbência, Diego convidou a sua mãe, Juvina de Bona, para contribuir no planejamento e ministrar a oficina. Juvina é doceira há 40 anos e, com seu espírito empreendedor, acumulou conhecimento e experiência para dividir com os grupos de mulheres.

“O fato da minha mãe ter vindo de uma família de origem humilde gera uma abertura com as participantes. Elas não precisavam se sentir acanhadas e se soltaram”, explicou Diego. Ele lembra que, em um certo momento do curso, todas estavam em volta da mesa e até os facilitadores estavam com dificuldade de se aproximar. Benedita concordou que a capacitação foi bem estimulante para as mulheres, considerando as especificidades de cada grupo. No primeiro dia, trabalharam receitas de babaçu e, no segundo dia, chocolate.

“Trabalhamos com a ideia de desenvolver o formato do curso e receitas novas que agradassem tanto o público infantil quanto os fitness”, relatou Diego. E as receitas não falharam: desde chocolates adorados pelos mais jovens até os cookies integrais de cacau e babaçu para adultos que preferem alimentos mais saudáveis. Benedita pontuou que foram apresentadas alternativas para aumentar o potencial das receitas, como recheios de doce de leite, amendoim e castanha. Algumas dicas despertaram a atenção das participantes. Por exemplo, muitas delas não deixavam a massa da bolacha de babaçu descansar e a diferença na textura era visível.

As receitas do segundo dia utilizaram o chocolate industrial comprado no comércio convencional. Essa opção permitiu que as mulheres aprendessem o processo de enformar, desenformar, rechear e embalar. No futuro próximo, elas poderão adquirir a melanger – máquina de moer e misturar o cacau – e utilizar os frutos coletados em suas roças. O equipamento produz também o licor da amêndoa do cacau e viabiliza a fabricação do puro chocolate orgânico e artesanal.

O recheio de doce de leite para os produtos de chocolate foi uma das alternativas apresentadas (Foto: Hubner Douglas)

Aparecida de Santana do grupo Mulheres Unidas trabalha há 5 anos com o babaçu, nativo da região. Ela resolveu participar do curso para aprender sobre outras possibilidades para diversificar a produção, como a bolacha, o pó para o mingau e outras receitas. Segundo Aparecida, “A gente espera crescer, trabalhar e ser conhecidas em vários lugares no nosso município, região e outros estados também com o nosso produto, a farinha de mesocarpo do babaçu”. A intenção de Cirlene Barbosa, do grupo Mulheres da Paz de Santa Clara, é parecida: “Eu vim ao curso para aprender e poder comercializar mais os produtos que a gente faz, para ver se tem mais saída”.

As próximas etapas para apoiar as melhorias das operações dos grupos de mulheres se refere à modificação das embalagens. “Conforme foram conversando, trocando experiências e aprendendo sobre a importância dessa apresentação, ficaram muito felizes e motivadas – porque tudo era bonito, algo mais próximo do padrão de mercado e elas não tinham isso antes”, descreveu Diego. Esses cuidados com a padronização das embalagens podem gerar valor agregado para os produtos.

O último momento da oficina foi a apresentação de embalagens disponíveis e a reflexão sobre a melhor forma de condicionar o produto para o transporte, evitando quebrar as bolachas, por exemplo. Os assentamentos onde as mulheres produzem estão a aproximadamente 50km de Cotriguaçu, município de comercialização e também de distribuição desses alimentos para outras cidades. Atualmente as mulheres utilizam bandejas de isopor cobertas por plástico e, no curso, se interessaram por uma bandeja mais funda.

Diego afirma que continuarão a apoiar os grupos com as embalagens e o deslocamento, aprimorando a logística. Alguns mercados já acessavam os produtos antigos e a expectativa é verificar a reação dos consumidores após as mudanças, que devem ser grandes e positivas para todos.

A escolha das embalagens favorece o transporte e a apresentação dos produtos (Foto: Hubner Douglas)

O curso também serviu para atrair as mulheres mais jovens, metade das participantes tinham menos de 24 anos. O envolvimento é relevante para manter a tradição das receitas e fixar as jovens no campo, se a necessidade de se mudar para as cidades maiores em busca de melhores condições de vida. Janaína de Andrade, do grupo Mulheres Esperança, é uma dessas jovens. Ela trabalha com o cacau e seus derivados: nibs, pó, barra e chocolate. A sua intenção ao participar do treinamento era melhorar os produtos, em especial com melhores embalagens, para agradar os clientes. Outra jovem participante foi a Kiscilla Milena do grupo Liberdade de Colniza. Ela atua com o babaçu: óleo, pó e doce. “Aprendi coisas que eu não sabia e para mim foi muito bom. A gente vai levar novas informações para o nosso grupo”, elogiou.

As mulheres estão se conhecendo agora, mas algumas já levam os produtos de outros grupos para a feira e fazem trocas comerciais entre si. O treinamento é a oportunidade para formar as conexões pretendidas pelo projeto Redes Socioprodutivas, realizado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) com apoio do Fundo Amazônia. A atuação em rede resulta na união e fortalecimento das mulheres, que podem buscar outros caminhos e espaços para a comercialização dos alimentos fabricados com o cacau e o babaçu.

Os consumidores possuem papel fundamental para estimular essa produção e o desenvolvimento da região. Ao comprarem produtos locais, orgânicos e da agricultura familiar, os mato-grossenses gozam de benefícios para a sua saúde e o meio ambiente, além de gerar renda para as mulheres e as suas famílias.