08 mar 2024
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Alta da dengue no país expõe efeitos das mudanças climáticas na saúde

Autor: Assessoria de Comunicação

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A alta da dengue no Brasil, que registrou aumento de 346% neste ano em relação a 2023, potencializou discussões sobre as ações de combate ao vírus no país. Porém, o impacto das mudanças climáticas em relação à doença ainda é pouco discutido.

A confluência de fatores como aumento médio da temperatura, mudanças na distribuição das chuvas, alterações nas correntes de vento e a maior incidência de fenômenos extremos contribuem para a potencialização de doenças. No Brasil, essa “tempestade perfeita” de condições adversas repercute sobretudo no agravamento das chamadas arboviroses, doenças causadas por vírus que têm como vetores principais os artrópodes (mosquitos e carrapatos).

A dengue foi registrada pela primeira vez no Brasil no início dos anos 1980. Naquela mesma década, causou endemias no Rio de Janeiro e em algumas capitais do Nordeste. Com o passar dos anos, avançou sobre novas áreas do território nacional. As baixas temperaturas do Sul do país e a grande altitude de certas regiões do Sudeste eram barreiras naturais para a proliferação do mosquito. Na última década, as mudanças climáticas e a urbanização têm consolidado a marcha da dengue no Brasil, com alta recorde de casos.

A dengue, porém, é apenas uma das doenças impulsionadas diretamente pelas mudanças climáticas. Isso porque zika, chikungunya e outras condições infecciosas também são potencializadas com o aumento da temperatura e mudanças no ciclo das águas. E todas essas podem se intensificar em um cenário de degradação ambiental, como o desmatamento, ou defasagem na infraestrutura urbana, a exemplo da falta de saneamento básico.

Tempestade perfeita

Conforme explica o analista socioambiental do Instituto Centro de Vida (ICV), Marcondes Coelho, as mudanças climáticas são alterações nas propriedades do clima ao longo do tempo. E essas perturbações ecológicas interferem na manutenção dos patógenos de doenças em seus ambientes naturais e favorecem a presença, distribuição e proliferação dos vetores das doenças em áreas florestais e urbanas.

“Neste sentido, podemos usar a dengue como um exemplo. Ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um alerta sobre a disparada de casos de dengue no mundo em razão do aquecimento global. A OMS destacou o aumento das temperaturas médias, das chuvas e os períodos prolongados de seca como razões centrais para os recordes da doença mundialmente”, disse Coelho.

Também no final do ano passado, o relatório global “The Lancet Countdown” apresentou uma previsão de que a dengue pode aumentar seu potencial de transmissão entre 36% e 37% com o aumento das temperaturas globais e alterações em outros padrões climáticos.

“Por um lado, uma maior frequência de chuvas acarreta no acúmulo de água em mais recipientes, aumentando a oferta de criadouros para as fêmeas dos mosquitos depositarem seus ovos. Por outro, um período de seca extrema obriga as pessoas a armazenaram água em tonéis ou em outros depósitos artificiais, que podem se tornar criadouros para a proliferação e aumento da população dos vetores. Essas duas realidades [chuva intensa e seca extrema] podem ocorrer devido ao desequilíbrio dos níveis de precipitação causados pela mudança do padrão climático, principalmente pelas emissões de gases de efeito estufa, em que a participação do desmatamento na Amazônia é uma fonte importante de emissões do nosso país”, acrescentou.

Coelho destaca ainda que há conexão direta entre o avanço do desmatamento e o aumento de casos de dengue. Em um dos casos, cuja análise foi divulgada em janeiro de 2022, a alta da doença no Cerrado alinhada ao desmatamento foram o plano de fundo da pesquisa. Os pesquisadores verificaram que há, sim, relação entre os fatores estudados. Divulgado em julho de 2021, estudo focado na Amazônia também localizou conexões entre o avanço do desmatamento e o agravamento de doenças.

Alta exposição

Os efeitos das mudanças climáticas têm um amplo alcance, mas há grupos sociais que são mais impactados, argumenta o analista. Para Coelho, determinadas populações estão mais expostas a situações de vulnerabilidade social pelo baixo acesso à infraestrutura. E sofrem mais com as repercussões das alterações relacionadas ao clima na saúde.

O analista destaca que é importante a criação de mecanismos que barrem o avanço das mudanças climáticas, principalmente do aquecimento global. Em paralelo, também é necessário que haja ações focadas no combate às desigualdades sociais e raciais.

“O mundo precisa mudar sua matriz energética e de produção de bens e serviços para transição de baixo carbono. A meta climática é cortar as emissões até 2030 em 28% para atingir a meta de 2°C do Acordo de Paris, ou uma redução de 42% para a meta de 1,5°C”, destacou.

“A redução de desigualdades sociais e raciais é parte central para esses objetivos, principalmente na Amazônia. A região concentra nossas maiores emissões e é onde podem surgir até novas pandemias se a devastação da floresta não for controlada. O investimento em educação e formação profissional, em habitação e saneamento básico, nas instalações de saúde e na geração de renda (sociobioeconomia) são prioridades fundamentais, especialmente para as populações vulnerabilizadas”, acrescentou.

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