10 Maio 2021
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Campanha pede ajuda a agricultores familiares atingidos por agrotóxico em MT

Autor: Assessoria de Imprensa

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Uma pulverização aérea em Paranaíta (MT) fez com que o agrotóxico 2,4-D atingisse mais de vinte propriedades da agricultura familiar de uma comunidade rural do município, localizado na região amazônica do estado, na segunda semana de abril.

Hortaliças, frutas e café sucumbiram ou tiveram o desenvolvimento severamente impactado após a aplicação do insumo.

Diante dos graves prejuízos socioeconômicos, o Instituto Centro de Vida (ICV) iniciou uma campanha de arrecadação emergencial para apoiar onze propriedades nas quais a produção hortifrutigranjeira é a principal ou única fonte de renda das famílias.

A campanha denominada “Feira Solidária Pela Família Rural” pede a doação, para mostrar a importância da agricultura familiar para todos, do valor gasto em uma feira.

Com apoio do ICV, muitos dos atingidos produziam de forma orgânica ou estavam em processo de transição para o método de produção sustentável.

Com o ocorrido, um possível processo de certificação fica comprometido por ao menos um ano.

“Se eu tivesse condições, metia a máquina e começava do zero. Muita coisa morrendo. É comida para comprar, energia para pagar, é difícil. Mas não podemos esmorecer”, desabafa Manoel dos Santos, um dos agricultores atingidos e que perdeu toda a plantação de melancias de um dia para o outro.

As folhas do café plantado na propriedade começavam, aos poucos, a amarelar.

Odair José estava trabalhando na roça da propriedade quando notou a presença do avião próximo.
“A gente viu, mas nem prestou muita atenção, estávamos trabalhando. Aí o vizinho depois falou que as coisas deles estavam morrendo, no dia seguinte chegamos aqui e vimos”, relata.

Na chácara de três hectares, vive com sua esposa e filhos. “A gente não tem outra renda, sobrevivemos disso daqui. Esse mês a gente recebe porque é da produção do mês passado, mas o próximo não sabemos”, diz.

Os cachos de banana, perto da época de colheita, apresentaram caroços nos frutos. Plantações de pés de maracujá, café, abobrinha, abóbora e outras dezenas de variedades foram completamente perdidas.

Os agricultores da comunidade Vila Rural Boa Esperança vendem pela Cooperativa de Hortifrutigranjeiros (Coopervila), que suspendeu a venda de produtos provenientes das áreas atingidas.

A cooperativa produz, em média, nove toneladas de alimentos por mês que abastecem hospitais, escolas e mercados da cidade de Paranaíta e municípios próximos.

É uma das organizações integrantes da Rede de Produção Orgânica da Amazônia Mato-grossense (Repoama) e se tornou referência na região na adoção de métodos sustentáveis para aumento da qualidade de vida no campo.

“Como a gente vai vender isso?”, questiona Roseli ao mostrar as alfaces murchas. “Pode fazer mal, não tem condições”, acrescenta.

Conhecido por ser um dos componentes do “agente laranja”, veneno utilizado na Guerra do Vietnã, o 2,4-D é também fortemente ligado a sérios riscos à saúde e é alvo de campanhas da sociedade civil pela sua proibição no Brasil.

Muitos dos agricultores relataram coceiras na pele, mal-estar, ânsia de vômito e dores de cabeça após a pulverização.

Osvaldo, marido de Roseli, precisou ir ao hospital buscar atendimento médico duas vezes e aguarda resultado do teste para saber se foi intoxicação pelo químico.

Antes da pulverização, o casal havia realizado a primeira colheita das bananas do sistema agroflorestal (SAF) implementado ao fim de 2018 e área que simbolizou importante fonte de manutenção da renda com a pandemia do coronavírus.

O agricultor foi infectado pela Covid-19 e as sequelas afetaram o desempenho no cultivo das hortaliças, que exige maior esforço físico.

As bananeiras foram completamente perdidas.

“É uma planta sensível ao veneno, pode até recuperar, mas o tempo de recuperar pode ser mais longo do que arrancar e plantar novas”, explica Luan Cândido, técnico do Programa de Negócios Sociais do ICV responsável pela assessoria à cooperativa, realizada através do Redes Socioprodutivos, projeto financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES.

O coordenador do Programa de Negócios Sociais do ICV Eduardo Darvin explica que o impacto é em vários âmbitos e traz uma sensação de risco futuro para os agricultores.

“Existe um impacto emocional e moral gigantesco. Para se fazer a conversão para uma unidade de produção orgânica, é necessário muita dedicação e trabalho para que as práticas agroecológicas surtam efeito na propriedade, para que a vida se equilibre e a produção flua e se consolide”, diz.

O impacto econômico é sem precedentes para as comunidades.

“Existe todo planejamento que abrange dos custos de produção ao preço que o produto será comercializado. Como houve perda da produção, é um impacto imediato e duro. E não poder vender como orgânico numa possível certificação pode prejudicar os preços de venda do próximo ano”, acrescenta.

“A gente vive disso aqui, não temos outra coisa além disso aqui. Então isso abalou muito a gente, o emocional também”, comenta Osvaldo.

Roseli comenta que o casal aboliu o uso de veneno há cinco anos na propriedade. “É muito triste porque trabalhamos muito e agora vamos ter que fazer tudo de novo. É como se fosse um filho que a gente perde”, diz.

Neura da Silva, que também testemunha o definhamento de plantas de seu sistema agroflorestal (SAF), relata que a família ainda consumiu nos dias seguintes à pulverização produtos provenientes da horta, como a alface.

“Quando vi a couve deformando e achava que era alguma praga, fui dando pros porcos, depois que me avisaram e eu me dei conta que foi o veneno”, diz.

O prejuízo financeiro é grande, de acordo com cálculos realizados pela Coopervila. Os agricultores tentaram chegar a um acordo com o fazendeiro responsável pela pulverização, mas até então não tiveram sucesso.

O decreto estadual 1.651, de 2013, determina a distância mínima de 90 metros de casas, fontes d’água e estradas para pulverização aérea de insumos.

O Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea-MT) e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) realizaram perícia nas lavouras e o laudo emitido foi encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE).

Eduardo ressalta que o avanço da produção de commodities como soja pela agricultura industrial na região, aliados ao aumento na liberação de novos agrotóxicos, pode implicar em maior frequência de casos similares.

O especialista em produção orgânica e agricultor afirma que as soluções perpassam por duas frentes: punitiva e preventiva.

“Prevenir através de instrumentos legais que garantam a proteção aos agricultores familiares, com limitação do uso de aviões agrícolas próximo a comunidades e propriedades rurais, sobretudo onde há produção orgânica. Precisamos ter zonas livres de pulverização aérea”, ressalta.


Diante do ocorrido, são necessários mecanismos para que as famílias atingidas sejam amparadas pelo poder público. “Para acessar seus direitos e garantias para que não saiam prejudicados moral e financeiramente”, diz.

APOIE

Para ajudar os agricultores familiares a pagarem as contas no próximo mês, doe para a campanha Feira Solidária pela Família Rural pelo PIX: 26.812.784/0001-46

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