17 mar 2021
ICV 30 anos

Agência de notícias, procura por antenas: a comunicação no ICV na primeira década do século

Autor: Assessoria de Imprensa

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Olhava para cima, sobre as modestas casas de mais um município localizado a centenas e centenas quilômetros da capital de Mato Grosso, Cuiabá. Uma antena ali, outra ali.

As antenas, escassas no interior do país à época, eram a bússola de Gisele Neuls e norteavam para onde se dirigia.

A jornalista entrava, se apresentava, entregava um cartão e um mídia kit, às vezes composto com um pendrive e algumas vinhetas para rádio.

Perguntava quem era o chefe de reportagem ou o diretor do veículo e logo começava a falar sobre o trabalho do ICV.

“Era pelas antenas como a gente via onde tinha TV ou rádio nos municípios”, conta a ex-coordenadora do Núcleo de Comunicação da instituição.

Para descobrir quais eram os jornais impressos, o jeito era bisbilhotar a recepção da Câmara de Vereadores ou da Prefeitura.  Anotava os contatos e endereço para depois ligar ou visitar.

O ano era 2006. A internet engatinhava e se encontrava ainda mais distante do que hoje em garantir resultados de contato telefônico e endereço eletrônico em buscas no Google para os canais de imprensa local na Amazônia mato-grossense.

Após mais uma crise, o ICV adentrava um novo processo de reconstrução e de novos projetos.

Um deles envolvia os integrantes da instituição em atividades de onze municípios da região em agendas que Gisele arrumava um jeito de “se encaixar” para estabelecer vínculos com os canais de comunicação locais.

Do final de 2005 ao final de 2017, a equipe do ICV saltou de 16 para 36 colaboradores e o número de projetos da instituição foi de oito para 14.

Junto com as ações, urgia a necessidade de melhores estruturas de divulgação. A Comunicação seguia o ritmo: dobrava de tamanho e produção.

Natural da capital do Rio Grande do Sul, pouco antes de começar a adentrar as câmaras municipais dos municípios rurais do norte de Mato Grosso, Gisele nunca havia nem pisado os pés na Amazônia brasileira.

Chegou em Alta Floresta em 2005 exatamente no dia 14 de abril, data em que o ICV comemorava 14 anos.

Antes disso, em um programa radiofônico denominado Sintonia da Terra, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), consultava regularmente um site chamado Estação Vida.

O veículo integrava uma fase que Gisele classificou de “momento de efervescência de canais de comunicação sobre meio ambiente” e era a agência de notícia socioambientais do ICV fundada por André Alves, que agora lhe contratava para suprir a necessidade de alguém da Comunicação baseado em Alta Floresta.

Lugar onde há alguns anos o ICV passara a concentrar as ações e, momentaneamente, único lugar onde tinha um escritório aberto.

JORNALISMO AMBIENTAL

Pouco antes da chegada da instituição no município amazônico, em 1998 André ingressava na instituição como estagiário.

O setor de Comunicação começava, aos poucos, a ganhar forma.

Foi inaugurado o informativo Rede Vida, veículo que fazia um apanhado das matérias de meio ambiente do país, além da produção própria.

“Escrevia e mandava para as rádios por fax, o serviço de uma manhã inteira”, relembra André.

E o Pantanal Vivo, produzido em parceria com a Ecoa, organização de Mato Grosso do Sul, que cobria principalmente questões envolvendo a Hidrovia Paraguai-Pantanal, obra de infraestrutura cujos impactos foram monitorados pela instituição de perto.

Pautavam a imprensa nacional e internacional e foi nesse período que o ICV passou a integrar o famoso “Máfia Verde”, livro que faz acusações infundadas a organizações ambientalistas e que afirmava serem as responsáveis por “travar o desenvolvimento” do país.

“Foi de grande relevância essa projeção”, ri André.

O desafio principal da Comunicação nos primeiros anos do século, afirma o ex-coordenador, era emplacar pautas no próprio estado onde nasceu e atuava, Mato Grosso.

“A gente tinha uma aceitação maior em outros estados, aqui a gente era visto como ecochatos”, conta.

Lograram o objetivo. “Com muita garra”, classifica.

Com o programa Fogo: Emergência Crônica e a injeção de recursos do projeto entre 1999 e 2004, o núcleo cresceu: chegou a contar com três jornalistas e três estagiários.

Em 2003, a equipe robusta tirou do papel uma ideia antiga de Sérgio Guimarães de criar uma agência de notícias. Era o início da Estação Vida. “Fomos um dos pioneiros nisso, conseguimos implementar esse sonho que ele tinha”, conta.

Foi com uma matéria para a agência que André recebeu um prêmio do Sindicato de Jornalistas de Mato Grosso, na época presidido por Rodrigo Vargas, jornalista que anos depois viria a assumir a coordenação do setor na instituição.

André diz que fazer jornalismo, mesmo dentro da assessoria de comunicação de uma ONG, foi o que abriu as portas da imprensa e da população no estado e fora para os conteúdos da instituição.

“O que também incomodava algumas outras instituições, mas nossa proposta sempre foi fazer jornalismo e não panfletagem, mesmo tendo uma causa”, conta. “E isso foi nosso diferencial.”

O ano de 2004 chegou junto com o fim do programa Fogo e o início de uma crise, que faria restar apenas André no setor da Comunicação.

No ano seguinte, com a reestruturação da organização que esteve próxima de fechar as portas, o jornalista escolheu Gisele em um processo seletivo.

Pouco depois, em 2006, André decidira trilhar uma nova experiência profissional e recém-chegada na instituição, em Alta Floresta e na Amazônia, Gisele assumia a coordenação e herdava o desafio de fortalecer ainda mais o legado de seu antecessor.

INFLUENCIAR RESULTADOS

Além das diferenças óbvias da capital gaúcha e da cidade interiorana de Mato Grosso, Gisele se deparou com a ruptura de uma situação “confortável” como ativista ambiental.

“É muito fácil ser militante e ativista em Porto Alegre. Saí desse universo e fui para um lugar onde ser ativista era um risco de vida”, conta.

Chegou em Alta Floresta no mesmo ano que as operações do Ibama e da Polícia Federal para controle de desmatamento ilegal paralisavam a economia de muitos dos municípios da região.

Uma cena recorrente nas estradas do interior marcara a jornalista. Famílias colocando as malas e outros pertences em cima de pequenos caminhões e abandonando os municípios, em busca de uma nova fonte de renda, uma nova vida.

Enquanto o ICV trabalhava ativamente pela criação de áreas protegidas na região nessa época, história abordada em outra reportagem da série especial de 30 anos, era também frequentemente associado às operações de fiscalização.

Nesse contexto, o trabalho da Comunicação se tornava ainda mais desafiador e, por vezes, delicado.

“O trabalho do ICV tinha que ser de ponderação, dialógico e da busca de pontos em comum para falar com todos”, afirma Gisele. “Era nosso papel, de manter as portas do diálogo abertas”, diz.

A aproximação com os canais locais ajudava nessa missão. Em seis meses de visitas aos municípios à procura de antenas e jornais da recepção, a comunicadora montou um mailing com todos os veículos de imprensa locais.

O conteúdo e os releases produzidos eram pensados e elaborados em uma linguagem que fizesse sentido para aqueles moradores.

“Pautava nossos projetos, nosso trabalho e nossa atuação ambiental, mas sem advogar com tom militante”, afirma.

Enquanto isso, os veículos próprios eram fortalecidos. Como o Portal da Amazônia, periódico do ICV e voltado para a temática da sustentabilidade na agricultura familiar na região.

A tiragem da publicação chegou a 4 mil exemplares escoados por uma rede de distribuição que incluía associações de agricultores em assentamentos e jovens que participaram de cursos de formação de comunicadores populares, também promovidos pelo setor.

Nessa época, o ICV editou, imprimiu e distribuiu o Boletim Governança Floresta no Xingu, de um projeto de mesmo nome, e deu início e continuidade à publicação até hoje existente de monitoramento da exploração madeireira e desmatamento ilegal no Boletim de Transparência Florestal.

Por um tempo também realizava clipagem, ou seja, o monitoramento de inserções na imprensa, de todas as atividades relacionadas ao asfaltamento da BR-163, obra que também contou com atuação de projetos do ICV.

“Era muita coisa, e isso que ainda não tinha ainda a era digital tão forte”, conta.

Muitas organizações do terceiro setor, ICV incluso, escreviam e planejavam projetos e inseriam o componente Comunicação apenas como uma forma de divulgar as ações. Gisele iniciava então um trabalho de “inversão da lógica”.

“Começamos a pensar em como as ações de comunicação poderiam contribuir para a efetividade daquelas metas nos projetos, quais veículos e meios faziam sentido para cada caso, ao invés de inserir um ‘pacote’ de comunicação pra cada coisa”, conta.

O trabalho, define a comunicadora, fez com que ela profissionalmente se desenvolvesse com muita rapidez e pautasse toda sua carreira, continuada em outros lugares após sair do ICV, em 2010.

“Aprendi, em cinco anos, o que eu não teria aprendido em dez numa redação ou num lugar de assessoria com muita estrutura”, conclui.

A qualidade dos produtos e no planejamento e estratégia, afirma Gisele, é que determinam uma comunicação bem feita.

Muito mais que o completo domínio das ferramentas, que mudam constantemente, em especial na era acelerada das redes sociais como hoje.

É isso que pauta o trabalho do atendimento que hoje Gisele presta a organizações da área socioambiental, ICV incluso.

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