Zerar desmatamento não compromete a economia

Zerar desmatamento não compromete a economia

Assunto foi tema de debate no Senado Federal

O agronegócio e o desenvolvimento econômico podem crescer e se expandir sem desmatamento. Este tema foi pauta na audiência pública na última terça-feira, 10, na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), no Senado Federal. Sob a temática “Desmatamento zero: como garantir o futuro socioambiental e econômico do Brasil”, o encontro contou com as presenças do senador do Amapá, João Capi e especialistas do tema das organizações do Greenpeace, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Observatório do Clima e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

A discussão girou em torno da Sugestão Legislativa (SUG) 6/2015, defendida pelo Greenpeace e outras organizações, com apoio de mais de 1,4 milhão de pessoas. A proposta é simples: proibir a emissão de novas autorizações de desmate, prevendo um período de exceção e adequação para as necessidades da agricultura familiar.

No final do ano passado, o Grupo de Trabalho (GT) pelo Desmatamento Zero – composto pelas ONGs Greenpeace, Instituto Centro de Vida, Imaflora, Imazon, Instituto Socioambiental, IPAM, TNC e WWF já havia lançado um documento guia sobre manter o desenvolvimento sem desmatamento. No estudo “Desmatamento zero na Amazônia: como e por que chegar lá”, as organizações indicam caminhos para eliminar, no curto prazo, o desmatamento na Amazônia, com benefícios ambientais, econômicos e sociais para todos.

Confira o estudo Desmatamento zero na Amazônia: como e por que chegar lá clicando aqui.

Em 2016 o desmatamento na Amazônia, sozinho, foi responsável por 26% das emissões domésticas de gases do efeito estufa. Zerar o desmatamento, é, portanto, a forma mais rápida e fácil de reduzir emissões e cumprir com o acordo de Paris. A boa notícia é que o Brasil já conhece o caminho para o desmatamento zero e sabe como chegar lá. “As medidas implementadas nos últimos anos (2005-2012) derrubaram as taxas de desmatamento na Amazônia em cerca de 70% e indicam que os elementos necessários para atingir o desmatamento zero se encontram presentes”, destaca a publicação.

Zerar desmatamento não compromete a economia. Assunto foi tema de debate no Senado Federal.
Pedro Franca, Agência Senado

Sugestão Legislativa

A SUG 6/2015,l discutida nessa semana no Senado precisa ser acatada pela CDH para começar a tramitar como projeto de lei no Senado. “A cada 10% de desmatamento, há uma queda de 50mm por ano na evapotranspiração, o que prova um aumento de 0,5 graus. Se os moldes atuais continuarem nessa mesma velocidade, em 2050 Belo Monte funcionará apenas com 25% da capacidade”, explicou Paulo Moutinho, do Ipam.

Rita Mesquita, do INPA, destacou que a imensa biodiversidade brasileira deve ser preservada, mas, também, aproveitada economicamente. Somente assim se garantirá desenvolvimento para as pessoas da região.

Não estamos falando de futuro, mas sim de coisas que estão acontecendo agora. Um mês a mais de seca têm um grande impacto. Ou reinventamos o que é agronegócio ou reinventamos nosso modelo de vida. Desmatamento zero não é atraso. Com inovação, tecnologia e ciência podemos ser a real potência econômica mundial”, defende Rita.

Em dados, Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, mostra que não é mais preciso desmatar. A área ocupada pela agropecuária, no Brasil está dentro da média mundial (32%). No total, são mais de 269 milhões de hectares, parte dos quais precisam ser restaurados e intensificados. “O agronegócio brasileiro foi construído com base em ciência e inovação. Agora é preciso investir também na biodiversidade. Assim, o Brasil ocupará um lugar muito maior no mundo não só com boi e soja mas com pirarucu, açaí e muitos outros.” ressaltou Rita Mesquita, do INPA.

Ainda segundo Tasso, o caminho agora é aumentar a produtividade das terras já liberadas para cultivo e pastagem. “Dobrando a produtividade pecuária é possível aumentar em 50% o rebanho e ainda assim liberar 40 milhões de hectares para agricultura. O Brasil possui um estoque de pelo menos 50 milhões desflorestados para atender as demandas de produção rural e recuperação ambiental pelo menos até 2030”, explicou.

A senadora do Piauí, Regina Souza, enfatizou a importância da educação para um futuro diferente e transformador do meio ambiente. “Essa audiência pública é a prova de que nós, senadores, estamos nessa briga junto com a sociedade. A população precisa sentir que tem alguém do lado certo da história”, disse. E o senador do Acre, Jorge Viana, lembrou que a conciliação da economia e da floresta geram desenvolvimento e melhoria na qualidade de vida das pessoas sem necessidade de desmatamento. Isso é sinônimo de avanço e modernidade, não de políticas de atraso.

Os participantes concordaram que o desmatamento, particularmente na Amazônia, continua a ser uma das principais fontes de emissão de gases do efeito estufa no país. De acordo com Cristiane Mazzetti, coordenadora da campanha pelo Desmatamento Zero do Greenpeace, perdemos todos os anos mais de 6 mil quilômetros quadrados de florestas.

Zerar desmatamento não compromete a economia. Assunto foi tema de debate no Senado Federal

Pedro Franca, Agência Senado

Tramitação

Quando acatada, o projeto de lei promete novas reformas para combater o desmatamento no país. Dentre as ações sugestivas para as mudanças, estão:

  • Produção da agropecuária em áreas já desmatadas. Na Amazônia, por exemplo, há 10 milhões de hectares de pastagens abandonadas ou mal aproveitadas que poderiam ser usadas para a ampliação da produção de carne e grãos;

  • Em 2016, pelo menos 24% do desmatamento se concentrou em áreas públicas sem destinação. Hoje há 70 milhões de hectares não destinados na Amazônia, que precisam ser convertidos em terras indígenas e unidades de conservação para frear o desmatamento especulativo;

  • Ampliação da economia florestal por meio de programas de governo, pois a extração de produtos florestais rendeu cerca de R$ 3 bilhões na média de 2015 e 2016, dos quais R$ 1,8 bilhão são oriundos da exploração de madeira e 537 milhões de extração de açaí;

  • Promover incentivos positivos para aqueles que conservam florestas além da exigência legal;

  • Aumentar a eficácia na punição de crimes ambientais;

  • Ampliação de esforços no monitoramento completo das cadeias produtivas e bloqueio de produtores que desmatam no setor privado. Por isso a importância da transparência total de dados socioambientais pelos governos.

Fonte: Senado Notícias