As cidades estão indo mal porque nossa relação com o campo vai mal
11/06/2010 - Augusto Pereira / Estação Vida
O professor de arquitetura Newton Massafumi, de São Paulo, subiu ao palco da III Semana de Meio Ambiente de Alta Floresta para falar de planejamento urbano. A plateia da noite da quinta era a maior desde segunda-feira e deve ter ficado surpresa porque em quase 30 minutos de fala o professor só abordou o meio ambiente e a população rural.
Tudo fez sentido nos 20 minutos restantes quando Massafumi mostrou o que acontece com a população que sai dos sítios e vem para as cidades. Na década de 60 nós tínhamos um equilíbrio entre a população urbana e a rural. Na década de 70 aconteceu a inversão. No Brasil temos mais de 80% da população nas cidades. No estado de São Paulo são 93% de população urbana.
É nas cidades onde acontece o desenvolvimento econômico e intelectual das pessoas. É lá que se decidem as coisas, de onde vem as notícias. Nossa sociedade é pensada para satisfazer os desejos da cidade e construir espaços urbanos. Por isso a migração acontece, principalmente entre os jovens.
Se o equívoco do desenvolvimento vem das cidades, segundo Massafumi, “é nas nelas que podemos pensar os rumos do que fizemos e estamos fazendo. É nela o espaço de decisão de desenvolver o futuro sustentável, como estamos fazendo hoje aqui”.
No crescimento do Brasil houve períodos de desenvolvimento e de penetração no continente. Na amazônia foram construídos eixos de penetração (Br 163 e Transamazônica) e junto com eles trouxemos as cidades. Criamos cidades muito parecidas, no mesmo modelo, independente dos biomas onde elas estão. As cidades não atendem o que os biomas têm como possibilidades.
As moradias estão posicionadas na cidade pelo valor do solo. Quanto mais perto do centro mais valor. Com isso vão crescendo desordenadamente porque os valores menores estão mais longe do centro. Quem precisa morar na cidade vai morar longe. É preciso economizar energia para ser sustentável. As pessoas moram numa cidade, mas fazem um esforço muito grande para deslocamento até o trabalho, o mercado, as escolas.
As áreas públicas sem uso, desprezadas ou sub valorizadas precisam ser usadas no estudo de alternativas ambientais. De forma didática podemos nos beneficiar e ter alternativas de sobrevivência.
As moradias precisam pensar no uso da energia para serem construídas. Toda chuva passa pelo telhado de uma casa, supondo 5 mil litros de água num mês, a chuva que cai sobre a casa é suficiente para mantê-la. Não vemos o potencial de economia energética que corre ao lado ou acima da casa. A mesma coisa com iluminação, temos muito sol, mas construímos casas onde é preciso acender luzes mesmo de dia. Sustentabilidade urbana é viver com o máximo que a natureza nos oferece. É possível viver com mais economia. Precisamos mudar nossa forma de produzir.
Circuito de parques em Alta FlorestaEdson da Riva, também arquiteto, mostrou o projeto original de Alta Floresta. O planejamento da cidade previa áreas verdes que segurariam a água pluvial, APPs urbanas. Mais tarde essas áreas foram transformadas em lotes e os espaços públicos foram perdidos. Um projeto planeja valorizar as áreas verdes urbanas que já existem para transformação delas em parques urbanos. A chuva, onde há áreas de preservação permanente penetra no solo, com a construção de casas na APP temos os alagamentos.
No projeto apresentado por Edson da Riva prédios e escolas públicas devem ser construídos perto da mata. “Assim podemos aproximar a educação escolar do bioma amazônico. Vocês podem falar que eu sou louco, mas se pudermos olhar com carinho para esse sistema podemos lucrar muito com isso” completa o arquiteto.
Adote uma nascentePara tornar possível os parques urbanos, Marcelo Machado apresentou o programa da prefeitura de Alta Floresta Adote uma Nascente. A cada baixada temos um curso d'água, temos uma riqueza e não sabendo cuidar dela. A microbacia de captação de água está em alta degradação. Segundo o levantamento da Agenda 21 a cidade corre o risco de ter racionamento em breve.
Diante destes fatos o professor Massafumi, primeiro palestrante perguntou “quem são as pessoas que podem aderir a esses pontos de vista? Quando faremos? Não temos ninguém para fazer por nós nem temos outro tempo”.
A III Semana de Meio Ambiente de Alta Floresta é uma realização da
prefeitura municipal, em parceria com o Instituto Centro de Vida, a
Fundação Ecológica Cristalino, a Unemat, Sociedade Formigas e o Instituto Floresta, com
apoio da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional).