Curso de Geotecnologias capacita lideranças socioambientais de Mato Grosso
30/06/2008 - Gisele Neuls
Um grupo de lideranças do movimento socioambiental de Mato Grosso concluiu na última sexta-feira, dia 27, o primeiro Curso de Básico de Geotecnologias, oferecido pelo Instituto Centro de Vida e pelo fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento. Durante uma semana, 18 pessoas conheceram ferramentas de sensoriamento remoto e aprenderam a utilizar sistemas de informação geográfica.
O que a primeira vista parece apenas um curso técnico, na verdade se desenha como o primeiro passo para uma rede de monitoramento independente da Amazônia. Com a rápida evolução tecnológica dos últimos anos, elaborar mapas e análises e monitorar via satélite o que acontece na Amazônia está cada vez mais acessível à sociedade civil. O resultado deste curso é possibilitar reunir a tecnologia disponível com o conhecimento de campo de inúmeros atores sociais, aumentando a eficácia não só das análises, mas do próprio trabalho de campo das organizações não-governamentais e movimentos sociais.
Que o diga Fernando Penna, coordenador técnico da Opan – Operação Amazônia Nativa. Com o entusiasmo de quem descobre algo muito precioso, ele diz que não imaginava que o uso de ferramentas de SIG (Sistema de Informação Geográfica) seria tão simples. “Para mim isso era uma coisa acessível somente para técnicos altamente especializados”. Ele se espanta com a disponibilidade de dados na internet, que sequer sabia que existiam.
Ricardo Abad, analista de SIG do ICV e um dos monitores do curso, confirma que as geotecnologias têm evoluído de forma a facilitar o acesso, com softwares livres e informação disponível gratuitamente na internet, e diz que a aura de extrema dificuldade envolvendo seu uso está aos poucos se desfazendo. “Estas ferramentas ficaram conhecidas como sendo de difícil acesso porque eram muito caras. Hoje com as ferramentas se tornando gratuitas, as pessoas podem se aventurar e explorar suas capacidades. Os conhecimentos básicos sobre cartografia, sistemas de informação geográfica e sensoriamento remoto possibilitam a um iniciante explorar as capacidades de softwares livres sem muito mistério”.
Para Fernando Penna, a descoberta será incorporada rapidamente no trabalho diário, desde a elaboração de relatórios e projetos até o acompanhamento do que acontece nas áreas indígenas e seu entorno. Além disso, ele considera que o uso do SIG vai melhorar o nível das discussões entre a Opan e outros atores políticos. “Agora posso participar de reuniões sem depender das informações que o poder público apresenta. Eu ganhei autonomia para ir preparado com informações precisas e relevantes para as discussões, sem ter que simplesmente aceitar os dados que o poder público me apresenta.”
Independência e autonomia, aliás, foram as palavras mais usadas pelos participantes do curso para resumirem o que o curso vai representar para suas instituições. O pareci Edson Kazumakazaê, membro da Associação Halitinã, aponta como se dá essa independência e autonomia, na prática. “Até então as entidades sempre levavam os mapas na aldeia e muitas vezes a gente nem sabia direito como ler esses mapas. Agora vamos poder não só ler, mas também fazer nossos próprios monitoramentos das ameaças aos rios e dos focos de calor, por exemplo”.
Carlos Paret (E) e Ricardo Abad. Foto: Gustavo Nascimento Carlos Paret (E) e Ricardo Abad. Foto: Gustavo Nascimento
Mais que autonomia, o curso vai representou o rompimento do isolamento geográfico para alguns. É o caso de Carlos Garcia Paret, membro da Ansa – Associação Nossa Senhora da Assunção, de São Félix do Araguaia, um município mil quilômetros distante de Cuiabá, entre os rios Araguaia e Xingu. A distância não mantêm a Ansa apenas longe da capital, mas também significa isolamento em relação a outras entidades socioambientais do Estado e mesmo da própria região – cenário que começou a ser transformado com a criação, no ano passado, da Articulação Xingu-Araguaia.
Para Carlos Paret, o curso veio em um excelente momento e vai contribuir para a Articulação vencer o isolamento e aprimorar sua atuação. “As ferramentas de SIG nos ajudarão a objetivar os problemas e elaborar estratégias coletivas mais ajustadas a esses problemas locais. Além disso, minha vinda aqui já criou uma agenda de contatos e relações que também são importantes para nos integrarmos mais na rede de instituições socioambientais do Estado.”. Certamente, um bom passo dado para a bem-vida rede de monitoramento da Amazônia.
O curso foi promovido com apoio do Projeto Diálogos. O projeto Diálogos é uma parceria entre Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB), Centro de cooperação internacional em pesquisa agronômica para o desenvolvimento/França (Cirad), Instituto Centro de Vida (ICV), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e WWF-Brasil, financiado pela União Européia. Seu objetivo é apoiar o diálogo entre diversos atores da sociedade, setores público e privado, tendo em vista a construção e implementação de políticas que visem a sustentabilidade social, econômica e ambiental na área de influencia da BR-163, na Amazônia Brasileira.