Povos indígenas são protagonistas em encontro do Fórum Teles Pires, em Alta Floresta

Povos indígenas são protagonistas em encontro do Fórum Teles Pires, em Alta Floresta

Pluralidade de representações foi destaque de mesa do Fórum Teles Pires. Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV
Pluralidade de representações foi destaque de mesa do Fórum Teles Pires. Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

Indígenas de diferentes povos em companhia de ativistas de outros segmentos e movimentos sociais de Mato Grosso foram protagonistas durante o encontro do Fórum Teles Pires (FTP) – Somos Todos Atingidos, na noite de ontem, 5 de outubro, no Teatro Experimental de Alta Floresta (Teaf) em Alta Floresta, na região norte mato-grossense. Suas falas se destacaram pela autenticidade da narrativa de vivências como populações atingidas por empreendimentos hidrelétricos nas Bacias Hidrográficas do Teles Pires, ao norte, e do Juruena, ao noroeste do Estado. Maria Ivonete Souza, uma das pioneiras do FTP, desde 2010, destacou a importância de incentivar esta pluralidade do movimento. O encontro foi mediado por João Andrade, coordenador de Redes Socioambientais do Instituto Centro de Vida (ICV), que também integra a mobilização

No contexto dos depoimentos, o público presente assistiu a uma sessão fechada do videodocumentário O Complexo (veja trailer e créditos), sobre o Teles Pires, que tem apoio do Instituto Centro de Vida (ICV), entre outras organizações. Romildo Tukumã Apiaká ressaltou a emoção de assistir o videodocumentário, por ter vivenciado algumas situações de violência sofridas pelos indígenas, neste embate pela defesa dos direitos, que resultaram em morte de um parente. “Achei importante a mensagem, porque o documentário deu a dimensão dos impactos que esses empreendimentos podem ter”, disse Rhuan Kruger, estudante de Engenharia Florestal.

Videodocumentário O Complexo sensibilizou a plateia. Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV
Videodocumentário O Complexo sensibilizou a plateia. Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

Também foi apresentada a obra Ocekadi: Hidrelétricas, Conflitos Socioambientais e Resistência na Bacia do Tapajós, por Brent Millikan, da International Rivers – Brasil, um de seus organizadores. O livro com 25 artigos escritos por cerca de 40 autores, dá um panorama sobre a situação dessa região, que envolve Amazonas, Pará e Mato Grosso, onde já há usinas em funcionamento e mais de 100 projetos previstos. A iniciativa tem apoio e coautoria de integrantes do ICV.

A plateia formada por cerca de 60 indígenas, professores, estudantes, ativistas e moradores do município ouviu atentamente os depoimentos. O indígena João Mairawi Kayabi destacou a luta contínua que seu povo mantém para ser ouvido e respeitado em seus direitos nos processos de instalação de usinas hidrelétricas, o que exige que defendam seus direitos com outras etnias em Brasília. “Já sentimos o impacto da usina que fica a 60 quilômetros da aldeia… As piraíbas morrem nas turbinas…Também não estamos bebendo a água do rio, porque existem sinais de esgoto vindo da região da obra”, disse.

Laureci Munduruku alertou que o rio Teles Pires está ficando cada vez mais seco. “Os empreendedores falam que é fenômeno da natureza, mas sabem que não é isso…”, afirmou. O indígena também criticou a falta de cumprimento e manutenção dos Planos Básicos Ambientais (PBAs), que são um compromisso obrigatório dos empreendedores.

Público variado participou do evento. Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV
Público variado participou do evento. Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

Os impactos sociais sofridos com processos de implementação de hidrelétricas sem a escuta dos atingidos foram destacados por Romildo Tukumã Santana Apiaká. Segundo ele, essa situação afeta algo que os indígenas têm de mais precioso, a liberdade. “O rio está morrendo e nossas famílias e culturas estão sendo enfraquecidas…”.

Bepo Metyktire, do Conselho Deliberativo da Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT), que é da região xinguana, lembrou que a UHE Belo Monte também teve efeitos em sua região. “Nossa organização é contra a instalação de hidrelétricas que afetam terras indígenas, porque precisamos ser ouvidos dentro da política brasileira”. Bepo também destacou o desrespeito à Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais, além de projetos que tramitam no Congresso, como a PEC 215, além de outros que tratam de modificações das regras de licenciamento ambiental.

Jairo Narciso da Silva, assentado da região de Sinop, ressaltou que um dos pontos que merece atenção nos processos de licenciamento destes empreendimentos é o respeito ao direito de propriedade.

Jefferson Nascimento, do Movimentos dos Atingidos por Barragem (MAB), que integra o Fórum Teles Pires, avalia que os processos de instalação não são democráticos. “É um procedimento de cima para baixo…e todo mundo paga um alto custo por este modelo de energia, que o estado brasileiro financia…”. O empoderamento da sociedade, segundo ele, é a única maneira de reagir a esta situação e lutar por uma matriz elétrica mais limpa. O ativista acrescenta que é preciso observar que há problemas que se somam a estas instalações, as chamadas externalidades, que mudam a qualidade de vida dos moradores dos municípios atingidos. Esse é o sentido da expressão  “Somos Todos Atingidos” utilizada pelo FTP.

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As atividades da mobilização podem ser acompanhadas em sua página no Facebook. Confira mais imagens do evento em: http://migre.me/vahtH.

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